I lost myself in somewhere
Rach. 17. Brazil.
s w i n d er x

“A tarde era cinza, um presságio para um crepúsculo sem cor. O cemitério era apenas vazio e solidão, mas lá de longe, próximo às grades de ferro do grande portão, avistava-se o violinista em seu terno preto pronto para mais um concerto de lamúrias. Posicionou o violino, fechou os olhos e arranhou as primeiras notas, cada qual a lhe perfurar a alma, criando-lhe abismos infindos. E ele veio, agora já de olhos abertos, a saudar cada mausoléu e sepultura. Não se demorava muito, até meia noite haveria de tocar para todas as almas que vagavam por aquele lugar. Num silêncio dolente, em frente a um mausoléu vistoso com um anjo enorme de asas abertas, parou e fez uma reverência. Não era mais um violinista a tocar para ossadas funestas e memórias mortas, naquele instante tocaria para sua Carolina. A única e perpétua Carolina, que lhe tocara o peito fazendo-o palpitar. Carolina fechara os olhos no dia 13 de julho de 1879, numa manhã lúgubre e chuvosa. Em seu epitáfio estavam grafadas as seguintes palavras: “Aqui jaz Carolina. Teu coração era botão em flor. Floresceu, quis decifrar o amor e morreu.”. Morreu a amar quem não a amava, sem saber que num quarto durante a noite, outro coração por ela palpitava. O violinista executara a mais bela e triste sinfonia de sua vida, a cada nota arrancada lhe descia uma lágrima. E em murmúrios lentos e ritmados clamava por sua Carolina. Olhava para o céu na esperança de ver um anjo a acenar. Mas não via nada, as nuvens escondiam tudo, a lua triste nem brilhava.”

O violinista dos mausoléus. Portugal, 13 de julho de 1884. H.Conrado.